Pessoal e insubstituível
Fazer um livro é desistir de um tempinho extra da sua vida. É abrir mão de uns meses (e em casos extremos anos). Você entrega ali aquela energia de vida e dá uma contribuição que julga ser a melhor possível. São noites e noites mal dormidas, dores musculares e de cabeça, algumas dores de barriga também. Dúvidas e dúvidas que se acumulam junto com a correspondência atrasada, os telefonemas não atendidos e as recusas de outros trabalhos ou projetos pessoais de diversão.
E quando é fazer um livro sobre a vida e a arte dos outros?… Aí, é melhor preparar os estoques de Migraliv, Valeriana e claro, café e chocolate…
Tem que valer a pena. Há que haver motivos muito fortes para te levar a esta desmedida empreita que ao final só prova sua própria insanidade que tão cuidadosamente você tenta esconder.
Há tempos que eu prometi que não faria mais isso! Há uns poucos tempos pegaram-me desprevinida… Eu não pude dizer não a tentadora proposta cheia de dificuldades e incertezas que me fizeram os parceiros da minha vida portuguesa.
Quando a PédeXumbo me chamou para fazer estas danças do Alentejo e de uma semana pra outra já estávamos (Domingos Morais, Celina da Piedade e eu) em grandes conversas torcendo pra ganharmos o Euromilhões e podermos por em prática todas as nossas maravilhosas mirabolantes idéias; eu vi que já estávamos dentro antes de saber o que viria a ser ou o que realmente conseguiríamos.
Claro que sim, afinal éramos nós! Nós, que já tínhamos ido ao Alentejo para a pesquisa, para comprar cestas na Feira de Castro, para fazer entrevistas, para visitar os amigos da Azaruja, para fazer baile e filme, para estar junto e para estar só, para estar bem e para ficar bem.
E hoje, quando eu li o post que a Celina escreveu no seu blog www.diariocomfole.blogspot.com sobre o meu trabalho, sobre mim, sobre nós, intitulado “Lia Marchi e o Alentejo” eu não poderia deixar de abrir um parêntese e imprimir aqui a pessoalidade que faz deste projeto o que ele realmente é: um encontro.
Peço esta licença e assumo o tom pessoal para registrar aqui, no blog das danças do Alentejo que fazemos isto, juntos. E que só fazemos porque é em conjunto. Uns com os outros.
Achei imensa graça ao ler que sou “uma investigadora de cabeça e coração inteiros”. E que me enchi de “coragens várias”. Este projeto vai alcançando mais do que o provável, mais do que o possível, porque me enchem de coragem e de referências, de apoio, de conversas e experiências estes dois interlocutores de diálogos já muito anteriores.
Eu conheci Celina da Piedade no meu 2º dia em Portugal num distante maio de 2004. Celina era designada pela PédeXumbo para ser guia da minha equipe (Zig Koch + L.M.Stein) que ia em busca dos tocadores de Portugal. Domingos Morais, conheceu-me neste mesmo dia, na conferência que eu proferi no Instituto Camões sobre o projeto Tocadores. E tendo que sair mais cedo por conta de um compromisso, deixou recado que queria conhecer mais e ajudar. Quem é que faz isto de verdade hoje em dia?
Desde então este dois amigos, músicos, companheiros de pesquisa e de criação artística tem estado em minha vida e em minha obra. Tem aberto portas e mais, tem seguido por elas comigo, fazendo deste caminho, uma jornada possível, agradável, desejosa.
Com eles tenho dividido as alegrias e tristezas de ver, viver e dançar no Alentejo em meio ao que a Celina nos conta: “o Alentejo rural continua em processo acelerado de abandono, a população está envelhecida e domada pelo desconsolo que trazem os campos por cultivar e a pobreza da televisão.”
É neste mesmo Alentejo que encontramos quem abraçar e quem chamar para o baile.
E só porque estamos em constante conversa, reflexão, ação, porque em conjunto somamos nossas forças, que conseguimos seguir diante da ameaça. As múltiplas habilidades dessa nossa tropa e a capacidade de pegar no leme quando um marujo precisa de ajuda governam bem esta viagem.
Muitas vezes nos questionamos sobre as maneiras de contar as histórias que nos são confiadas. Há quem sugira que eu sou muito emocional (fama que vem das já habituais lágrimas nos lançamentos). Mas quanto mais passa o tempo, mais eu sinto que vamos em direção a pessoalidade necessária para falar de arte e de tradição.
Trata-se de falar de pessoas, de suas vidas, de suas expressões e impressões no mundo.
Se eu puder pedir mais esta licença, atribuo este caminho aos nossos mestres, Benjamim Pereira em especial e Domingos Morais em particular. É uma espécie de “etnografia emocional” que eles vêm fazendo ao disponibilizar sua presença e sua obra no dia a dia de uma nova geração – minha, da Celina, do Artur (Fernandes), da Mercedes (Prieto), do Pedro (Mestre), companheiros que reconheço como inspiração e participação.
Haverá quem ache esta “etnografia emocional” desajeitada, imprevista talvez. Mas eu a sinto pessoal, insubstituível, reveladora dos prazeres e das parcerias. Não me faz sentido nenhum escrever um livro sem isto. Sem o processo, sem as marcas, sem as trocas, não há muito mais no fazer música e dança que nos representa que contar quem somos e com quem somos.
E estas músicas, danças, histórias, só se fazem, só se contam porque as pessoas são aquelas, porque nos deram as mãos, os corações, o tempo, a licença de entrarmos em suas vidas desmedidamente. A ponto de pô-las a dançar e sorrir quando tudo indicava o fim.
Pois é… Pessoal e insubstituível – é o que desejamos para as nossas vidas, para a nossa música, para os livros com os quais contamos da vida.