Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 01/06/2010

Aconteça o que acontecer, ninguém jamais vencerá a Hannah Montana

Aconteça o que acontecer, ninguém jamais vencerá a Hannah Montana

Nas viagens pelo Alentejo em busca das danças, vez por outra acabamos por fazer paradas em escolas. Em parte porque nosso amigo Pedro Mestre (artista e educador) ensina o cante nas escolas, em parte porque a PédeXumbo desenvolve programas de ensino da dança tradicional em escolas, em parte porque eu mesma aproveito para continuar minhas iniciativas neste terreno fértil – o da educação pela arte.

Criar propostas para a arte na escola, como ferramenta educativa e formadora do indivíduo e do coletivo, especialmente nos domínios da música e da dança tradicional é um desafio de proporções hollywoodianas. E é, sem dúvida, uma tarefa que nos rodeia ao procurarmos pelas danças do Alentejo e percebermos o potencial que este repertório pode significar na educação infantil para atender os desafios acima mencionados.

E porque é desafiador? Porque utilizar estes conteúdos pressupõe construir nas crianças um universo de sentidos e ligações com aquilo que é a tradição – um conjunto de saberes, valores, comportamentos e expressões que traduzem o grupo e sua forma de se relacionar com o mundo, ou seja, música e dança feita por nós a partir de e com nossos sentidos. Pressupõe também que os educadores que coordenam este processo (educativo e criativo) estejam eles próprios encharcados destes conteúdos, a fim de realizar nas atividades propostas a controversa vocação do repertório tradicional: perpetuação e movimento.

Sentir o sEU pode ser tarefa complexa nos dias atuais, em que temos oferta tão grande de diversidade (e veiculação midiática de tão pouca diversidade cultural…), e a nossa (suposta) liberdade de escolha anda tão exacerbada que já não sabemos escolher diante de tanta informação, cheia de cores, luzes e fórmulas de prazer instantâneo.

Ainda por cima, temos em casos como o do Alentejo, a recente ruptura com a tradição após o 25 de Abril e a necessidade de negar os valores do passado associados ao tempo da pobreza absoluta e da fome. O que é fácil acontecer neste caso, é que na ânsia de negar a pobreza, as pessoas podem tornar-se verdadeiramente pobres, ao jogar fora a maior riqueza de todos, a sua cultura, saber milagroso da expressão do indivíduo e da coletividade.

A música e a dança tradicional, bem como o conjunto de valores que elas trazem para a escola, representam hoje um poderoso caminho na construção de uma coletividade mais expressiva e de um indivíduo mais integrado ao seu coletivo, mais capacitado para respeitar o seu próximo e, portanto, capaz de abrir espaços para a diversidade de culturas do mundo em pé de igualdade.

As crianças (pré-adolescentes – eles me corrigem com frequência) de hoje vestem as camisetas da Hannah Montana, cantam as músicas da Miley Cirus (aquelas de fora da série televisiva…), e pasmem, já chegaram a Lady Gaga. Mas, se tivermos atenção dobrada com elas e recontarmos as histórias do Pedro Malasartes, brincarmos com a Cabra Cabrez (prima transmontana da brasileira Cabra Cabriola), cantarmos a Laranjinha da China, dançarmos os balhos de roda do Alentejo, elas vão poder escolher, daqui alguns anos, dar um espaço mais equilibrado as diferentes formas de expressão cultural do planeta.

Não tenho bem certeza se será preciso vencer a Hannah Montana, mas em Vale de Vargo, Concelho de Serpa – Alentejo, perguntei às crianças qual era sua canção favorita das que o Pedro lhes ensinara. Ganhou disparado Olá Vizinha, uma canção de entretenimento de crianças que eu aprendi no Algarve com as Moçoilas, que aprenderam de alguém e incluíram no CD sabiamente intitulado “Já cá vai roubado” (Aliás: ladrão que rouba da tradição tem cem anos de perdão.), que eu ensinei no Brasil como música portuguesa e que reaprendo agora, 100% alentejanada.

E assim, quiçá, teremos em breve as crianças do Alentejo a dançar e cantar as rodas na escola, em sala de aula e no intervalo, nas brincadeiras sem o incentivo dos adultos. E sim, sou uma crédula na força deste repertório, e eu até acho plausível que se o ensinarmos em larga escala, a neta da Miley Cyrus acabe por gravar um repertório mais diversificado…

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Responses

  1. Oi Lia,

    primeiro agradeço por ter posto um link ao meu blog, Danke! Tomei um tempinho para ler o seu blog agora. Muito poético – deixa o leitor fazer uma viagem imaginada; e também bem interessante para quem se interessa pelas tradições coreo-musicais de Portugal, como eu. Danke para isso também!!

    um abraço da Alemanha,
    Barbara

    • Barbara querida, viva!
      Fico muito contente de saber que anda a acompanhar estas viagens por Portugal, que também tu fizestes tantas vezes.
      Eu espero que este blog possa ser um ponto de encontro sobre as danças e músicas que fazem de Portugal uma terra a visitar sempre.
      Um abraço forte daqui e do Brasil!
      Lia


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