Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 17/06/2010

Memórias dos bailes 02

Memórias dos bailes 02

Rico dia em Melides! Depois do baile do Centro de Dia, lá fomos nós – nossos professores de valsa mandada Luísa e Manuel Araújo, jantar e falar dos bailes.

As memórias de áudio estavam cheias e os equipamentos ficaram no carro, à volta da mesa, só as conversas e o caderno de campo. Afinal, há prazeres instantâneos, memórias que nos contam e que recontamos esperando trazer delas a cor viva dos sonhos e o relato do “real vivido”.

Hoje, diz-me seu Manuel, as regiões que ele considera mais representativas em termos das valsas são Santa Margarida, Ademas, São Francisco.

“Houve tempo em que ninguém mais dançava a valsa por aqui: Ninguém!” – frisa o senhor Manuel. Ele credita em parte esta decaída da valsa e dos bailes de modo geral na região à partida dos homens para lutar nas Guerras Coloniais. Na década de 1960 havia ainda muitos bailes em Melides. Em 1962, foram poucos os homens de Melides que foram para Angola, mas em 1964 e 1965 nas campanhas de Moçambique e Guiné, muitos homens da região foram mobilizados e as famílias sofriam por eles, a comunidade sentia sua ausência e assim os ânimos para os bailes eram menores.

Foi também a partir desta altura e um pouco mais adiante que apareceram os bailes com aparelhagem. Contam-me Manuel e Luísa de um personagem da região, que morava em Grândola; o Sr. Fialho. Este senhor tinha um gira-discos e vinha de graça, por gosto, a Melides com a aparelhagem para fazer bailes. No começo poucos aderiram, mas com o tempo mais pessoas passaram a freqüentar este tipo de baile.

Os bailes com tocadores em geral tinham uma entrada, de valor pequeno. Cobra-se entrada justamente para angariar fundos para pagar ao tocador, que aquela altura deveria ganhar mais ou menos por baile o que ganhava um trabalhador por dia de serviço. O senhor Fernando Augusto, tocador de acordeão que desde sempre tocou nos bailes do Alentejo, informa que o valor pago ao músico dependia da sua fama. Um tocador que levasse mais gente ao baile ganhava mais. Em geral os valores poderiam ser entre 40 Escudos, 80 Escudos, 100 Escudos. O senhor Fernando, afamado, levava muita gente ao baile, mais de cem pessoas (na altura os bailes com cinqüenta, cem pessoas eram bailes enormes) e assim ganhava a volta de 120 Escudos.

O senhor Manuel conta-nos do Dia da Feira de Melides, um acontecimento local em que havia dois bailes apinhados de gente por aqui.

Um deles era o baile na Casa do Povo (que ficava em outras instalações – diferentes das que hoje abrigam nossos bailaricos semanais com o pessoal do Centro de Dia).

A Casa do Povo de Melides promovia bailes que eram destinados aos seus sócios, mas quem era conhecido da região podia lá chegar que o deixavam entrar. A entrada era gratuita, a Casa do Povo pagava o tocador.

Nestes bailes havia uma série de regras. As mulheres e raparigas entravam por uma porta e os rapazes por outra. As mulheres ficavam no salão do baile propriamente dito, sentadas em cadeiras e em um longo banco que rodeavam o salão retangular. Em um canto ficava o senhor Fernando Augusto, nosso tocador de acordeão. Os rapazes ficavam em uma sala separada, e só podiam entrar no salão quando a música começasse. Se não estivessem lá dentro a música não começava. O pai do senhor Manuel era contínuo e trabalhava na Casa do Povo. Era encarregado de colocar os rapazes todos na saleta e não deixava a música andar se eles não estivessem lá dentro. O senhor Manuel compara o início da música ao estouro da rolha do champagne! Saiam todos a correr para apanhar o par que queriam. Se demorassem quando lá chegavam já não tinham a rapariga que queriam… Fim da música, todos os rapazes de volta à saleta. Pequeno intervalo de um ou dois minutos, raparigas de volta às cadeiras, inspeção feita, nenhum rapaz no salão, podia se começar tudo outra vez. Dona Luísa acrescenta que o baile era muito disciplinado da Casa do Povo, tinha muitas regras…

Na Casa do Povo, nessa altura, não se dançavam valsas mandadas, dançava-se o tango, valsas “normais”, rapsódias, os êxitos do momento, um fado, as chamadas séries – músicas umas pegadas nas outras.

No dia da Feira de Melides havia outro grande baile. Lá o senhor Manuel chegou a ir, mas nunca dançou, pois não conhecia o pessoal. Ia pra apreciar. Era um baile mais popular, como os do campo, o baile do Casão do Tio Bernardino.

Tio Bernardino era proprietário de terras – “Mas não era rico”, acrescenta dona Luísa – “Tinha que trabalhar para viver”. Semeava trigo, arroz, cereais. Tinha um armazém e no dia da Feira lá juntava gente que pagava uma entrada pequena (justamente para pagar o tocador) e ia lá dançar. O senhor Manuel lembra-se deste baile no Casão acontecer somente no dia da Feira de Melides.

Nos bailes do Casão do Tio Bernardino dançava-se a moda do campo. Não havia tantas regras como na Casa do Povo. Ficavam todos juntos numa sala, conversando uns com os outros, rapazes e raparigas. E o repertório era o mesmo das funções (nome que se dava aos bailes rurais na região – e alias, por outros lados também, inclusive no Brasil).

Nas funções ou funçanadas dançava-se a valsa mandada, a meia passada, o raspadão. A valsa, mandada ou sagorra, como era também chamada, imperava. Valsa sagorra, dos sagorros – os do campo. Manuel Sobral e outros daqui da região tem me ensinado muito sobre estes termos e as mudanças destes nomes e do baile em si. Qualquer hora será oportunidade de aprofundar esta questão.

Por hora, ainda acrescento que muita gente fazia também bailes no campo para ajudar a pagar a construção da sua casa. Lá juntavam os vizinhos e convidavam gente para o baile, cada um pagava uma entrada e vendiam-se comidas, bebidas. “As pessoas iam para ajudar as outras, eram solidárias” – acrescenta o senhor Manuel. E eu acrescento aqui esta informação para fechar este post que já se faz longo porque a prática dos chamados mutirões, das ajudas comunitárias no campo, muito tem a ver com a força e as regularidades dos bailes.

Os bailes que fazemos hoje na Casa do Povo de Melides com o pessoal do Centro de Dia é também, de certa forma, uma espécie de mutirão. Juntamo-nos todos para nos ajudarmos. Para me ajudarem a ter documentos sonoros e visuais sobre os repertórios de dança que por aqui se faziam nos bailes, para se ajudarem a divertir! Para dançar junto e não deixar o tempo passar, antes, passar pelo tempo com mais alegria, com mais vida, com mais dança!

Vai aqui um pouquinho mais do nosso baile!

http://vimeo.com/12647266

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