Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 26/06/2010

Ligações, alegrias e tristezas na linha

Ligações, alegrias e tristezas na linha

Começo a manhã com uma entrevista para uma rádio de Ponte de Sôr, Alentejo. Falo do propósito de fazermos um arquivo online e do blog já na rede e o jornalista pergunta-me se será possível todas as pessoas consultarem nossas recolhas de campo.

Saio à rua e há carros com bandeiras do Brasil e várias pessoas com a camisa da seleção brasileira – onde é que eu estou mesmo? É uma golfada de alegria, um sentido de grupo que a Copa traz para o imigrante brasileiro em Portugal; um país de sempre na tradição da imigração. Hoje jogam Brasil e Portugal, felizmente ambos já classificados. Haveremos de nos encontrar mais à frente em situação aflitiva…

Ontem fomos a Sintra ver o Wisnik e o Nestroviski (José Miguel e Artur – sim, brasileiros), que na sua alua show intitulada lindamente de “Nas palavras das canções” cantaram Pessoa na Culturgest para saudar Saramago e Dominguinhos em Sintra para saudar São João. E de Tom e Vinícius (Jobim e de Moraes) cantaram e contaram o que há de mais profundo na alma luso brasileira, traduzido na sentença: “Tristeza não tem fim, felicidade sim”. De um Orfeu Negro da favela chegando ao Barack Obama, que percebe o mistério de sua origem na tela do rosto de sua mãe ao rever o filme do seu sonho de juventude, Wisnik pôs ali, na tristeza e na alegria, as ligações mais improváveis e, portanto, absolutamente reais. É sempre assim, já repararam?

O Wisnik do futebol, da música, das palavras, de O Som e o sentido, da genialidade do sorriso, me acompanhou nas viagens pelo Alentejo presente na sua singela peça intitulada Primavera.

Digo ao jornalista que espero ir a Ponte de Sôr e rever a orquestra de harmônicas, uma referência da terra que eu conheci num encontro do Inatel no Algarve. Penso na orquestra de harmônicas de Curitiba, minha atual terra no Brasil, que tem também uma orquestra de harmônicas que é referência que eu conheci na adolescência.

Olho pro dia que passou com suas alegrias e tristezas e com tantas ligações não só entre Brasil e Portugal (tema que sempre me ronda), mas entre a canção e a vida, entre a música e o sermos nós mesmos, entre o sermos como somos porque assim cantamos e o assim cantarmos vir do que somos.

Não sei ainda se um dia todas as pessoas poderão acessar nossa pesquisa na linha. Esse é o nosso plano. Mas será este o plano das pessoas?

Antes do Wisnik abrir o concerto com a sentença de Tom e Vinícius, falávamos sobre a tristeza do Alentejo, sobre o abandono do território, sobre o esvaziamento de jovens, sobre a falta de perspectiva com que se deparam muitos que ficam. E eu dizia da dificuldade de documentar dança neste contexto, tendo em vista que o baile é a celebração da alegria, do dançar para afirmar seu contentamento, da necessidade de se ter muita gente para documentar uma dança.

Eu não sei bem como a conversa continuou, mas me lembro de ter concluído quase que num movimento orgânico e dito a seguinte sentença: “E justamente por tudo isso me parece que faz tanto sentido falar de dança e de baile neste momento.” Itaércio Rocha, referência da arte e da dança popular na minha vida uma vez me disse numa aula: “A alegria também se exercita.” Nunca mais me esqueci disso. Quando sinto que a tristeza anda muita, em mim ou ao meu redor, busco um estratagema qualquer pra exercitar a alegria. Dançar é bem bom nestas horas. Dá sempre resultado.

Tem uma coisa qualquer que liga Brasil e Portugal, por vezes na improbabilidade de ver montes de camisas da seleção brasileira em Oeiras, ouvir o Wisnik em Sintra, ou duas orquestras de harmônicas de boca de referência… Tem uma coisa qualquer que liga a alegria e a tristeza nos povos dos dois países, na sua riqueza e na sua pobreza. Tem uma coisa qualquer que liga as danças do Alentejo ao futuro. Ainda não sei se vamos conseguir colocar tudo isso “em linha”, mas vamos tentar.

Vai aqui o Wisnik cantando a Primavera, só pra quem também acredita.

http://www.youtube.com/watch?v=qX-_m1u53Kc&feature=player_embedded#!

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Responses

  1. “A primavera é quando ninguém mais espera”
    Acreditamos?
    Lia, acredita. És uma benção para o Alentejo. E para nós, que te admiramos no teu empenho e amor pelo que sonhas. Volta depressa!

    • Celina!
      Em tantas viagens os girassóis alentejanos estiveram à vista na janela, não é?
      Não havia como não cantar esta doce Primavera pelas estradas nesta grande empreita que levamos à frente. Um improvável Alentejo nos sonhos de todos nós se materializa cada vez que puxamos o verso.
      É muito bom contar contigo.
      Lia

  2. Muito bonito, Lia.

    Obrigado.


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