Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 30/07/2010

Pessoal e insubstituível

Pessoal e insubstituível

Fazer um livro é desistir de um tempinho extra da sua vida. É abrir mão de uns meses (e em casos extremos anos). Você entrega ali aquela energia de vida e dá uma contribuição que julga ser a melhor possível. São noites e noites mal dormidas, dores musculares e de cabeça, algumas dores de barriga também. Dúvidas e dúvidas que se acumulam junto com a correspondência atrasada, os telefonemas não atendidos e as recusas de outros trabalhos ou projetos pessoais de diversão.

E quando é fazer um livro sobre a vida e a arte dos outros?… Aí, é melhor preparar os estoques de Migraliv, Valeriana e claro, café e chocolate…

Tem que valer a pena. Há que haver motivos muito fortes para te levar a esta desmedida empreita que ao final só prova sua própria insanidade que tão cuidadosamente você tenta esconder.

Há tempos que eu prometi que não faria mais isso! Há uns poucos tempos pegaram-me desprevinida… Eu não pude dizer não a tentadora proposta cheia de dificuldades e incertezas que me fizeram os parceiros da minha vida portuguesa.

Quando a PédeXumbo me chamou para fazer estas danças do Alentejo e de uma semana pra outra já estávamos (Domingos Morais, Celina da Piedade e eu) em grandes conversas torcendo pra ganharmos o Euromilhões e podermos por em prática todas as nossas maravilhosas mirabolantes idéias; eu vi que já estávamos dentro antes de saber o que viria a ser ou o que realmente conseguiríamos.

Claro que sim, afinal éramos nós! Nós, que já tínhamos ido ao Alentejo para a pesquisa, para comprar cestas na Feira de Castro, para fazer entrevistas, para visitar os amigos da Azaruja, para fazer baile e filme, para estar junto e para estar só, para estar bem e para ficar bem.

E hoje, quando eu li o post que a Celina escreveu no seu blog www.diariocomfole.blogspot.com sobre o meu trabalho, sobre mim, sobre nós, intitulado “Lia Marchi e o Alentejo” eu não poderia deixar de abrir um parêntese e imprimir aqui a pessoalidade que faz deste projeto o que ele realmente é: um encontro.

Peço esta licença e assumo o tom pessoal para registrar aqui, no blog das danças do Alentejo que fazemos isto, juntos. E que só fazemos porque é em conjunto. Uns com os outros.

Achei imensa graça ao ler que sou “uma investigadora de cabeça e coração inteiros”. E que me enchi de “coragens várias”. Este projeto vai alcançando mais do que o provável, mais do que o possível, porque me enchem de coragem e de referências, de apoio, de conversas e experiências estes dois interlocutores de diálogos já muito anteriores.

Eu conheci Celina da Piedade no meu 2º dia em Portugal num distante maio de 2004. Celina era designada pela PédeXumbo para ser guia da minha equipe (Zig Koch + L.M.Stein) que ia em busca dos tocadores de Portugal. Domingos Morais, conheceu-me neste mesmo dia, na conferência que eu proferi no Instituto Camões sobre o projeto Tocadores. E tendo que sair mais cedo por conta de um compromisso, deixou recado que queria conhecer mais e ajudar. Quem é que faz isto de verdade hoje em dia?

Desde então este dois amigos, músicos, companheiros de pesquisa e de criação artística tem estado em minha vida e em minha obra. Tem aberto portas e mais, tem seguido por elas comigo, fazendo deste caminho, uma jornada possível, agradável, desejosa.

Com eles tenho dividido as alegrias e tristezas de ver, viver e dançar no Alentejo em meio ao que a Celina nos conta: “o Alentejo rural continua em processo acelerado de abandono, a população está envelhecida e domada pelo desconsolo que trazem os campos por cultivar e a pobreza da televisão.”

É neste mesmo Alentejo que encontramos quem abraçar e quem chamar para o baile.

E só porque estamos em constante conversa, reflexão, ação, porque em conjunto somamos nossas forças, que conseguimos seguir diante da ameaça. As múltiplas habilidades dessa nossa tropa e a capacidade de pegar no leme quando um marujo precisa de ajuda governam bem esta viagem.

Muitas vezes nos questionamos sobre as maneiras de contar as histórias que nos são confiadas. Há quem sugira que eu sou muito emocional (fama que vem das já habituais lágrimas nos lançamentos). Mas quanto mais passa o tempo, mais eu sinto que vamos em direção a pessoalidade necessária para falar de arte e de tradição.

Trata-se de falar de pessoas, de suas vidas, de suas expressões e impressões no mundo.

Se eu puder pedir mais esta licença, atribuo este caminho aos nossos mestres, Benjamim Pereira em especial e Domingos Morais em particular. É uma espécie de “etnografia emocional” que eles vêm fazendo ao disponibilizar sua presença e sua obra no dia a dia de uma nova geração – minha, da Celina, do Artur (Fernandes), da Mercedes (Prieto), do Pedro (Mestre), companheiros que reconheço como inspiração e participação.

Haverá quem ache esta “etnografia emocional” desajeitada, imprevista talvez. Mas eu a sinto pessoal, insubstituível, reveladora dos prazeres e das parcerias. Não me faz sentido nenhum escrever um livro sem isto. Sem o processo, sem as marcas, sem as trocas, não há muito mais no fazer música e dança que nos representa que contar quem somos e com quem somos.

E estas músicas, danças, histórias, só se fazem, só se contam porque as pessoas são aquelas, porque nos deram as mãos, os corações, o tempo, a licença de entrarmos em suas vidas desmedidamente. A ponto de pô-las a dançar e sorrir quando tudo indicava o fim.

Pois é… Pessoal e insubstituível – é o que desejamos para as nossas vidas, para a nossa música, para os livros com os quais contamos da vida.

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Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 25/07/2010

Danças, danças e mais danças

Danças, danças e mais danças

Está chegando… Dentro de alguns dias a Associação PédeXumbo muda temporariamente de endereço!

Carvalhais, São Pedro do Sul, casa de dançadores que vem de todo Portugal e de outras terras para levantar poeira no recinto do maior festival de danças no país – o Andanças.

Este ano, em sua 15ª edição, o festival traz o de sempre e muito mais.

Para quem quiser aproveitar para dançar e saber mais sobre as danças do Alentejo no Andanças, vale conferir:

– Oficina de Valsas Mandadas com Luísa e Manuel Araújo;

– Apresentação do Projeto Arquivo das Danças do Alentejo com o Prof. Domingos Morais;

– Pedro Mestre e Celina Piedade cantam e contam repertório do Alentejo; entre outras atividades.

Para fazer sua agenda, consulte a programação em:

www.andancas.net

Aproveitamos a ocasião para informar a todos que fizerem registros em foto, áudio e vídeo das danças do Alentejo no festival, que se desejarem, podem nos enviar material para termos em nosso arquivo como base de pesquisa ou divulgação. Desde já agradecemos a cooperação dos interessados.  Para mais informações, escreva-nos: arquivodancasalentejo@gmail.com

A todos e todas, boas danças de 2 a 8 de Agosto, em Carvalhais!

Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 19/07/2010

Respirando fundo…

Pilhas, montes, listas. No Brasil, tempo de reajuntar as histórias do Alentejo rumo as danças. Foto: Lia Marchi/ADA

Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 03/07/2010

Até Setembro…

Até Setembro…

Incrível! Passaram três meses.

É que passaram mesmo.

Eu não dei por isso muitas vezes, mas os dias continuaram a ter 24 horas, as semanas ainda tiveram 7 dias e a distância de Oeiras a Castro Verde ainda é o tempo de um capítulo.

Nesse virar das páginas deste 1 capítulo, ontem era 08 de abril e hoje é 03 de julho. E eu estive algures entre o centro-sul neste intervalo. Na maior parte deste tempo, percorri incontáveis quilômetros com o Cara Negra entre Oeiras – Lisboa – Melides – Évora – Castelo de Vide – Castro Verde e seus respectivos arredores.

Nestes três meses fizemos pesquisas de referências bibliográficas e de documentação sobre as danças, fizemos entrevistas com grupos e dançadores, gravações de ensaios e demonstrações, registros em foto, áudio e vídeo, apresentações públicas do projeto, reuniões com apoiadores e parceiros, contatos com a imprensa, com interlocutores nas localidades, tratamos de imensa burocracia, fizemos baile, fizemos música e fizemos texto sobre o contexto.

Aqui no blog foram 19 posts, 62 comentários, 3212 visualizações e um sem fim de pensamentos, imagens e clicks nesta janela tempo-espaço.

Volto ao Brasil em julho e em setembro retorno ao Alentejo com o desafio de terminar nosso Caderno para as danças, que se lança em outubro, em Évora.

Eu ia dar mais números, até porque nos parecem extremamente positivos os nossos balanços contábeis. Mas não sou muito boa com números e por isso mudo o rumo desta prosa, pra ver se vira poesia.

E em vez de números, traduzo os nossos resultados em nomes. Até porque estes números não existiriam sem estes nomes.

Sem vocês não teríamos chegado até este momento, não iríamos mais a frente nos números que nos esperam na nossa segunda etapa de pesquisa, em setembro.

Obrigada:

– IELT, Ana Paula Guimarães, Anabela e Oriana pela coragem da aposta;

– Equipe do escritório PX pela retaguarda;

– Pedro Mestre, Paulo Nascimento (CM Castro Verde), Margarida Ribeiro e toda gente do Baixo Alentejo que nos recebeu para conversas e gravações;

– Luísa e Manuel Araújo, todos os dançadores da valsa mandada da Serra de Grândola, nosso grupo de amigos do Centro de Dia de Melides e à junta de Freguesia de Melides;

– Tiago Malato, Joana Andrade, António Nunes e Rancho de Castelo de Vide e os amigos e amigas do Alto Alentejo que registramos;

– Pedro Morais e Miguel Barriga com seus equipamentos fantásticos;

– Sr. Agostinho com suas máquinas maravilhosas;

– Centro Nacional de Cultura e Guilherme D´Oliveira Martins pelo apoio à iniciativa;

– Marlon Braga e Francis Haisi no apoio técnico ao blog;

– Aos nossos amigos e amigas: Mercedes Prieto, Margarida Moura, Filipa Marques, João Bacelar, Lucia Serralheiro, Rui Júnior, Maurício Osaki, L.M. Stein, Família Marchi, Família Rebelo Morais, pelos conselhos e companhia.

Um agradecimento especial a todos os leitores e comentadores deste blog que acompanharam nossa viagem e aos meus interlocutores fundamentais, Prof. Domingos Morais e Celina da Piedade.

A todos que nos deram contatos e informações, aos que entrevistamos, aos que registramos em danças, obrigada. Em breve voltamos a nos ver. Setembro é já ali…

Em julho e agosto aderimos ao manifesto Slow Blog e do Brasil virão algumas notícias das danças do Alentejo.

Até setembro!

Para brindar nossa viagem pelo mundo, deixo este post com o fado, com a Chuva, com o encontro que sempre nos compromete: canta Mariza!

http://www.youtube.com/watch?v=OzrUs08-SWs&feature=related

Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 01/07/2010

Perguntas com resposta – Parte 01

Perguntas com resposta – Parte 01

Ao longo destes três meses ouvi muitas vezes algumas perguntas freqüentes como: Mas se dança no Alentejo? Mas o Alentejo não é o cante? Mas o vira é do Minho, como assim dançar o vira no Alentejo?

Chegamos ao fim de uma primeira etapa de pesquisas de campo e embora já tenha me referido a estes temas em posts anteriores, parece-me uma boa altura para re-conversar estas três questões e algumas outras que me surgiram a partir destas. Até porque, nem sempre as perguntas têm resposta, mas estas, para nossa sorte têm resposta e solução. Como sempre as soluções não são nem fáceis, nem rápidas de se encontrar, pelo que este post vai ao ar em partes. Também não convém dar todas as respostas juntas – o que faz parecer que está tudo resolvido e aí não se aproveita nem se usa. Elas também virão em partes, em tempos. Neste post, a primeira pergunta e sua resposta.

Perguntam: Mas se dança no Alentejo?

E respondo: Sim, dança-se no Alentejo. Assim como se dança em qualquer comunidade, nem que não seja muito comunitária e não dance a sua própria música de expressão e sentido coletivo.

Mas no caso do Alentejo, dançou-se muito com música e forma coreográfica de expressão e sentido daquela particular cultura e comunidade. E quando se diz isso, reforça-se aqui que, embora a troca de informações e a sedimentação de uma cultura local nas coletividades rurais de até a primeira metade do século XX tivessem um ritmo próprio e mais lento (tanto para se formar, quanto para se transformar), as pessoas e os grupos, como é claro, aprendiam uns com os outros. Aprendiam com as deslocações físicas que faziam e com as viagens das informações que lhes chegavam das mais diversas maneiras (fossem por “estrangeiros” – basicamente qualquer pessoa de fora, pelas levas de trabalhadores em continuas migrações, pelos meios de comunicação como o rádio, a televisão e porque não a linguagem escrita em forma de jornal e não só, etc.)

Entretanto, retomando a dança e deixando um pouco de lado a mudança: dançou-se muito no Alentejo até a primeira metade do século XX um repertório de danças sociais, extremamente inclusivas que giravam em torno de: A) coreografias executáveis pelos membros da comunidade (em geral de fácil aprendizado, a exceção nítida da valsa mandada); B) uma memória comum de valores e acontecimentos locais, traduzidas no canto, no verso, no texto da música; C) uma necessidade prática da coletividade: de se divertir, de comemorar, de se entreter, de se encontrar e promover o encontro e o namoro e portanto, em última análise, promover a sua própria continuidade. Este conjunto de motivações e sentidos, em termos de danças resultou em pares e rodas que giravam em torno de passos variados que se mantiveram dentro de um contexto que sem dúvida podemos caracterizar como dança popular portuguesa.

A partir da segunda metade do século XX por um conjunto de acontecimentos que se viram não só no Alentejo e alguns não só em Portugal, as estruturas da vida rural e das pequenas coletividades foram profundamente alteradas em um curto espaço de tempo. Destacamos no caso específico do Alentejo como motivos de diminuição de algumas práticas de festa e dança presentes no discurso da população local entrevistada no âmbito deste projeto: a partida dos homens para as guerras coloniais, a imigração para trabalhar em outros países e em outras partes do território português, a (mais recente) partida da população jovem para os grandes centros urbanos em busca de trabalho e melhores condições de vida (leia-se aqui não somente escolas e hospitais, mas também cinema, movimento, namoros, oportunidades de entretenimento do cotidiano da vida moderna).

Este (res)sentido esvaziamento do interior provoca não só a partida física da população jovem, mas a partida simbólica da vida e o conseqüente esvaziamento da força da população que fica, em sua maioria de idade mais avançada. Um contexto não muito favorável a efervescência do baile.

Ainda assim, ainda se dança no Alentejo. Menos do que já se dançou e em núcleos e ocasiões mais claramente definidas. Diferentemente de em tempos, quando tudo se fazia por dançar: na ceifa, na monda, no fim de semana, na festa, na festa do santo, no baile que se organizava para poder dançar e assim por diante.

Depois de um breve período em que se assiste a uma queda dos bailes no gosto popular, por volta dos anos 1960 e 1970, como fruto dos motivos apontados que levaram a “desertificação da alegria”, assiste-se a um retorno dos mesmos. O aparecimento do acordeom eletrônico que faz o baile do interior com “um só instrumento que é uma banda” aos olhos e ouvidos de seu público será também um fator de destaque na organização e aceitação do baile.

O que me parece ter acontecido nesta retomada é que os bailes vieram de novo e com repertório novo, trazido pelas intensas e rápidas mudanças da segunda metade do século XX. Hoje a música mais dançada nestes tipos de bailes no Alentejo é a Kizomba (gênero vindo de Angola). E para os incrédulos que perguntam de onde ela tirou isso? Não faço um post para explicar, apenas digo: vai lá ao baile ver. A Kizomba é a vaga do momento. É uma onda que tem cerca de 5 a 8 anos. Antes dela foi a febre da lambada. Outras virão, algumas ficarão, outras serão no futuro só um tempo de passagem. Não quer dizer que se toca só isso. Toca-se muito isso neste momento. Tocam-se também marchas, fados, musica brasileira, Quim Barreiros, mazurcas e polcas algures, entre outras. Este é hoje o baile popular da festa da aldeia Alentejana. Responder como e porque o baile foi para este caminho levaria mais uns quantos posts, quem sabe um dia tentamos esta resposta, se isso for mesmo o principal interesse de alguém.

Agora interessa mais dizer que ainda há a dança popular tradicional do Alentejo. Sim, ainda há, mas neste particular momento ela está restrita aos tais núcleos e ocasiões específicas de dois parágrafos atrás. Quais são eles?

Por um lado a memória de uma população que viveu o baile espontâneo brotando do desejo e da necessidade de se divertir que acontecia em qualquer lugar e tempo que permitisse e que lhes fazia todo o sentido.

Esta memória, que está viva, está também guardada. Por vezes muito bem guardada; é preciso mexer e remexer para ela ganhar força e movimento, re-transbordar. Mas ela existe.

Estamos num ponto de viragem. Ou registramos, praticamos e ensinamos ou talvez não sejamos capazes de reencontrá-la em condições no futuro. Hoje ela aparece nas entrevistas oficiais de projetos de pesquisa como este que vão mesmo para saber dela, por vezes nasce de uma conversa informal de um grupo de amigos num café de aldeia algures entre Castelo de Vide e Serpa. Ela também aparece em grupos como as Papoilas do Corvo que juntam as conversas da juventude de cada uma delas para dançar em grupo e mostrar o que se dança. Aparecem também nos muitos lares de idosos espalhados pelo país como em Melides ou Alpalhão – está algures quando se desliga a televisão (que aliás estava tão alta…). Elas aparecem nas oficinas de valsa mandada do senhor Manuel Araújo e da Dona Luísa no Andanças, com poloneses a dançar a valsa tradicional do Alentejo litoral.

Se criarmos alguma brecha, qualquer que seja, surgem no Alentejo e para além dele, gente que quer, gosta e vai sabendo dançar à Alentejana.

As tais memórias ainda aparecem por vezes espontaneamente em bailes de rua na festa da aldeia, quando se junta à gente que mora na terra àqueles que voltam para matar a saudade e sem ninguém ver, sem estar lá a TV ou a minha câmera surge um baile de mastro cantado ou uma roda para dançar o pulante.

E também justiça seja feita, as memórias do baile viram práticas em territórios muito bem marcados. Com local, data, horário, sentido e razão próprios para acontecer. São eles, os já mais que tradicionais de Portugal, os amados, detestados, incompreendidos e pertinentes ranchos folclóricos. Outro tema que merece muitos posts e de certeza terá alguns aqui num futuro próximo. Mas apenas para não deixar de dizer agora, os ranchos folclóricos são hoje, a meu ver, com seus problemas e soluções, o território por excelência da dança tradicional no país. Ou seja, é no rancho que o povo português ainda dança aquela tal dança.

E antes que eu não termine, respondo: Ainda se dança no Alentejo um repertório que pode ser chamado de alentejano. Não é fácil no Alentejo de hoje proporcionar condições materiais e imateriais para ele. Não esperamos nesta empreita resolver todo este longo processo que vem de mais de um século. Mas esperamos, ingenuamente ou não, criar documentação baseada em sentidos e sentimentos para se dançar mais e melhor um conjunto de danças que fizeram a história de um tempo, de um local, de muita gente de dentro e fora do Alentejo.

E para terminar de vez, vá lá uma dança alentejana. O Vira de seis, com o Rancho Nossa Senhora da Alegria de Castelo de Vide! Aliás – um abraço lá pro pessoal!

http://vimeo.com/12989950

Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 29/06/2010

Dia de São Pedro, noite de arraial

Dia de São Pedro, noite de arraial

Dia de São Pedro, que vem com as chaves do céu fechar o ciclo das festas em honra aos Santos Populares.

Pedro, pedra fundamental, pescador de homens, controla as portas do céu e garante a entrada e a saída dos dançadores nos arraias juninos e joaninos com a sua chave tradicionalmente coroando o mastro principal!

Mastro em festa popular de Castro Verde, Baixo Alentejo, 2010. Foto: Lia Marchi/ADA
Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 26/06/2010

Ligações, alegrias e tristezas na linha

Ligações, alegrias e tristezas na linha

Começo a manhã com uma entrevista para uma rádio de Ponte de Sôr, Alentejo. Falo do propósito de fazermos um arquivo online e do blog já na rede e o jornalista pergunta-me se será possível todas as pessoas consultarem nossas recolhas de campo.

Saio à rua e há carros com bandeiras do Brasil e várias pessoas com a camisa da seleção brasileira – onde é que eu estou mesmo? É uma golfada de alegria, um sentido de grupo que a Copa traz para o imigrante brasileiro em Portugal; um país de sempre na tradição da imigração. Hoje jogam Brasil e Portugal, felizmente ambos já classificados. Haveremos de nos encontrar mais à frente em situação aflitiva…

Ontem fomos a Sintra ver o Wisnik e o Nestroviski (José Miguel e Artur – sim, brasileiros), que na sua alua show intitulada lindamente de “Nas palavras das canções” cantaram Pessoa na Culturgest para saudar Saramago e Dominguinhos em Sintra para saudar São João. E de Tom e Vinícius (Jobim e de Moraes) cantaram e contaram o que há de mais profundo na alma luso brasileira, traduzido na sentença: “Tristeza não tem fim, felicidade sim”. De um Orfeu Negro da favela chegando ao Barack Obama, que percebe o mistério de sua origem na tela do rosto de sua mãe ao rever o filme do seu sonho de juventude, Wisnik pôs ali, na tristeza e na alegria, as ligações mais improváveis e, portanto, absolutamente reais. É sempre assim, já repararam?

O Wisnik do futebol, da música, das palavras, de O Som e o sentido, da genialidade do sorriso, me acompanhou nas viagens pelo Alentejo presente na sua singela peça intitulada Primavera.

Digo ao jornalista que espero ir a Ponte de Sôr e rever a orquestra de harmônicas, uma referência da terra que eu conheci num encontro do Inatel no Algarve. Penso na orquestra de harmônicas de Curitiba, minha atual terra no Brasil, que tem também uma orquestra de harmônicas que é referência que eu conheci na adolescência.

Olho pro dia que passou com suas alegrias e tristezas e com tantas ligações não só entre Brasil e Portugal (tema que sempre me ronda), mas entre a canção e a vida, entre a música e o sermos nós mesmos, entre o sermos como somos porque assim cantamos e o assim cantarmos vir do que somos.

Não sei ainda se um dia todas as pessoas poderão acessar nossa pesquisa na linha. Esse é o nosso plano. Mas será este o plano das pessoas?

Antes do Wisnik abrir o concerto com a sentença de Tom e Vinícius, falávamos sobre a tristeza do Alentejo, sobre o abandono do território, sobre o esvaziamento de jovens, sobre a falta de perspectiva com que se deparam muitos que ficam. E eu dizia da dificuldade de documentar dança neste contexto, tendo em vista que o baile é a celebração da alegria, do dançar para afirmar seu contentamento, da necessidade de se ter muita gente para documentar uma dança.

Eu não sei bem como a conversa continuou, mas me lembro de ter concluído quase que num movimento orgânico e dito a seguinte sentença: “E justamente por tudo isso me parece que faz tanto sentido falar de dança e de baile neste momento.” Itaércio Rocha, referência da arte e da dança popular na minha vida uma vez me disse numa aula: “A alegria também se exercita.” Nunca mais me esqueci disso. Quando sinto que a tristeza anda muita, em mim ou ao meu redor, busco um estratagema qualquer pra exercitar a alegria. Dançar é bem bom nestas horas. Dá sempre resultado.

Tem uma coisa qualquer que liga Brasil e Portugal, por vezes na improbabilidade de ver montes de camisas da seleção brasileira em Oeiras, ouvir o Wisnik em Sintra, ou duas orquestras de harmônicas de boca de referência… Tem uma coisa qualquer que liga a alegria e a tristeza nos povos dos dois países, na sua riqueza e na sua pobreza. Tem uma coisa qualquer que liga as danças do Alentejo ao futuro. Ainda não sei se vamos conseguir colocar tudo isso “em linha”, mas vamos tentar.

Vai aqui o Wisnik cantando a Primavera, só pra quem também acredita.

http://www.youtube.com/watch?v=qX-_m1u53Kc&feature=player_embedded#!

Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 24/06/2010

Correndo atrás do tempo

Correndo atrás do tempo, algures no Baixo Alentejo Foto: Lia Marchi/ADA

Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 17/06/2010

Memórias dos bailes 02

Memórias dos bailes 02

Rico dia em Melides! Depois do baile do Centro de Dia, lá fomos nós – nossos professores de valsa mandada Luísa e Manuel Araújo, jantar e falar dos bailes.

As memórias de áudio estavam cheias e os equipamentos ficaram no carro, à volta da mesa, só as conversas e o caderno de campo. Afinal, há prazeres instantâneos, memórias que nos contam e que recontamos esperando trazer delas a cor viva dos sonhos e o relato do “real vivido”.

Hoje, diz-me seu Manuel, as regiões que ele considera mais representativas em termos das valsas são Santa Margarida, Ademas, São Francisco.

“Houve tempo em que ninguém mais dançava a valsa por aqui: Ninguém!” – frisa o senhor Manuel. Ele credita em parte esta decaída da valsa e dos bailes de modo geral na região à partida dos homens para lutar nas Guerras Coloniais. Na década de 1960 havia ainda muitos bailes em Melides. Em 1962, foram poucos os homens de Melides que foram para Angola, mas em 1964 e 1965 nas campanhas de Moçambique e Guiné, muitos homens da região foram mobilizados e as famílias sofriam por eles, a comunidade sentia sua ausência e assim os ânimos para os bailes eram menores.

Foi também a partir desta altura e um pouco mais adiante que apareceram os bailes com aparelhagem. Contam-me Manuel e Luísa de um personagem da região, que morava em Grândola; o Sr. Fialho. Este senhor tinha um gira-discos e vinha de graça, por gosto, a Melides com a aparelhagem para fazer bailes. No começo poucos aderiram, mas com o tempo mais pessoas passaram a freqüentar este tipo de baile.

Os bailes com tocadores em geral tinham uma entrada, de valor pequeno. Cobra-se entrada justamente para angariar fundos para pagar ao tocador, que aquela altura deveria ganhar mais ou menos por baile o que ganhava um trabalhador por dia de serviço. O senhor Fernando Augusto, tocador de acordeão que desde sempre tocou nos bailes do Alentejo, informa que o valor pago ao músico dependia da sua fama. Um tocador que levasse mais gente ao baile ganhava mais. Em geral os valores poderiam ser entre 40 Escudos, 80 Escudos, 100 Escudos. O senhor Fernando, afamado, levava muita gente ao baile, mais de cem pessoas (na altura os bailes com cinqüenta, cem pessoas eram bailes enormes) e assim ganhava a volta de 120 Escudos.

O senhor Manuel conta-nos do Dia da Feira de Melides, um acontecimento local em que havia dois bailes apinhados de gente por aqui.

Um deles era o baile na Casa do Povo (que ficava em outras instalações – diferentes das que hoje abrigam nossos bailaricos semanais com o pessoal do Centro de Dia).

A Casa do Povo de Melides promovia bailes que eram destinados aos seus sócios, mas quem era conhecido da região podia lá chegar que o deixavam entrar. A entrada era gratuita, a Casa do Povo pagava o tocador.

Nestes bailes havia uma série de regras. As mulheres e raparigas entravam por uma porta e os rapazes por outra. As mulheres ficavam no salão do baile propriamente dito, sentadas em cadeiras e em um longo banco que rodeavam o salão retangular. Em um canto ficava o senhor Fernando Augusto, nosso tocador de acordeão. Os rapazes ficavam em uma sala separada, e só podiam entrar no salão quando a música começasse. Se não estivessem lá dentro a música não começava. O pai do senhor Manuel era contínuo e trabalhava na Casa do Povo. Era encarregado de colocar os rapazes todos na saleta e não deixava a música andar se eles não estivessem lá dentro. O senhor Manuel compara o início da música ao estouro da rolha do champagne! Saiam todos a correr para apanhar o par que queriam. Se demorassem quando lá chegavam já não tinham a rapariga que queriam… Fim da música, todos os rapazes de volta à saleta. Pequeno intervalo de um ou dois minutos, raparigas de volta às cadeiras, inspeção feita, nenhum rapaz no salão, podia se começar tudo outra vez. Dona Luísa acrescenta que o baile era muito disciplinado da Casa do Povo, tinha muitas regras…

Na Casa do Povo, nessa altura, não se dançavam valsas mandadas, dançava-se o tango, valsas “normais”, rapsódias, os êxitos do momento, um fado, as chamadas séries – músicas umas pegadas nas outras.

No dia da Feira de Melides havia outro grande baile. Lá o senhor Manuel chegou a ir, mas nunca dançou, pois não conhecia o pessoal. Ia pra apreciar. Era um baile mais popular, como os do campo, o baile do Casão do Tio Bernardino.

Tio Bernardino era proprietário de terras – “Mas não era rico”, acrescenta dona Luísa – “Tinha que trabalhar para viver”. Semeava trigo, arroz, cereais. Tinha um armazém e no dia da Feira lá juntava gente que pagava uma entrada pequena (justamente para pagar o tocador) e ia lá dançar. O senhor Manuel lembra-se deste baile no Casão acontecer somente no dia da Feira de Melides.

Nos bailes do Casão do Tio Bernardino dançava-se a moda do campo. Não havia tantas regras como na Casa do Povo. Ficavam todos juntos numa sala, conversando uns com os outros, rapazes e raparigas. E o repertório era o mesmo das funções (nome que se dava aos bailes rurais na região – e alias, por outros lados também, inclusive no Brasil).

Nas funções ou funçanadas dançava-se a valsa mandada, a meia passada, o raspadão. A valsa, mandada ou sagorra, como era também chamada, imperava. Valsa sagorra, dos sagorros – os do campo. Manuel Sobral e outros daqui da região tem me ensinado muito sobre estes termos e as mudanças destes nomes e do baile em si. Qualquer hora será oportunidade de aprofundar esta questão.

Por hora, ainda acrescento que muita gente fazia também bailes no campo para ajudar a pagar a construção da sua casa. Lá juntavam os vizinhos e convidavam gente para o baile, cada um pagava uma entrada e vendiam-se comidas, bebidas. “As pessoas iam para ajudar as outras, eram solidárias” – acrescenta o senhor Manuel. E eu acrescento aqui esta informação para fechar este post que já se faz longo porque a prática dos chamados mutirões, das ajudas comunitárias no campo, muito tem a ver com a força e as regularidades dos bailes.

Os bailes que fazemos hoje na Casa do Povo de Melides com o pessoal do Centro de Dia é também, de certa forma, uma espécie de mutirão. Juntamo-nos todos para nos ajudarmos. Para me ajudarem a ter documentos sonoros e visuais sobre os repertórios de dança que por aqui se faziam nos bailes, para se ajudarem a divertir! Para dançar junto e não deixar o tempo passar, antes, passar pelo tempo com mais alegria, com mais vida, com mais dança!

Vai aqui um pouquinho mais do nosso baile!

http://vimeo.com/12647266

Publicado por: Lia Marchi para Arquivo das Danças do Alentejo | 17/06/2010

Santos populares, bailes populares

Santos populares, bailes populares
Ena pá!

Viva António, Pedro e João!

Dos contratos, dos casamentos, dos mastros e das fogueiras, de Lisboa, do Carneirinho, dos terreiros, das sardinhas, dos bumbas e das quadrilhas, da pamonha e da pipoca, das bandeirinhas, das quermesses e leilões.

Já vai alto Junho e os Santos Populares são ocasião de festa e baile no Brasil e em Portugal.

Os tempos mudaram, os bailes mudaram, mas joaninos e juninos segue dia a fora a romaria, noite adentro o São João.

Deixamos aqui um bailarico que aconteceu em Castro Verde, no dia 11 de Junho, organizado pela Associação de Moradores do Bairro dos Bombeiros, e fica também o nosso especial agradecimento à organização da festa que muito gentilmente nos recebeu.

Aproveitamos para convidar os festeiros e as festeiras, os que dançam e os que não dançam, para o nosso arraial em Évora que este ano vai ser animado pelas valsas mandadas da Serra de Grândola com os nossos amigos Luísa e Manuel Araújo.

Dia 19 de junho, nos antigos Celeiros da EPAC, sede da Associação PédeXumbo, teremos oficina de valsas mandadas às 16hs, apresentação do projecto Arquivo das Danças do Alentejo às 18:30h, entrega dos instrumentos aos bolsistas do programa Bolsa de Instrumentos às 21:30h, seguidos de bailarico marcado para as 22hs.

http://vimeo.com/12647225

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